Sobre o lugar de prazer e de descanso.
Descansar também pode ser um ato de coragem. Sobre Marta, Maria e o que significa parar de me abandonar.
AMOR PRÓPRIOAUTOCONHECIMENTOAUTOCOMPAIXÃO
Alessandra Girotto
9/12/20264 min read


Já faz algum tempo que ando revendo minha rotina e o que ando fazendo comigo mesma. Durante esses momentos, muitas vezes me pego lembrando de um trecho da Bíblia onde é contada uma pequena história sobre “Marta” e “Maria”.
Eu venho de uma família católica, regada a missas de domingo e catequese aos finais de semana. Batizei, crismei… fiz todo o processo - portanto, minha infância, minha mente e meu inconsciente são recheados de histórias bíblicas.
Enfim, pelo que lembro, durante uma de suas viagens Jesus estava na casa de Marta e Maria. Num belo dia, durante essa visita, Marta estava superocupada arrumando tudo, garantindo alimentação e conforto para todos, enquanto Maria estava sossegada, sentada aos pés de Jesus, simplesmente ouvindo e absorvendo tudo o que ele tinha para dizer.
Marta, atarefada, cansada e com raiva, reclamou, pedindo a interferência de Jesus diante dessa injustiça. Ela queria que Maria fosse ajudá-la com os deveres todos. Jesus, muito sabiamente - aliás, uma sabedoria que eu duvidei por muito tempo… - respondeu que não faria isso, pois “pouca coisa era necessária” - melhor dizendo, que havia apenas uma única coisa que era realmente necessária - e ela era exatamente o que Maria estava fazendo. Sendo assim, isso não seria tirado dela, já que “ela tinha escolhido a boa parte”.
Essa é apenas uma das histórias que marcaram os domingos da minha infância enquanto ouvia os sermões dos padres - muitas vezes sem entender absolutamente nada…
Vocês não fazem ideia de como essa história já mexeu comigo, como ela já deu os mais diversos nós na minha cabeça, quantas vezes eu achei que havia compreendido para depois descobrir que não… ainda não.
Minha cabeça da época simplesmente não conseguia aceitar a ideia de que a atitude de Jesus havia sido “boa”, “sábia” ou amorosa. Como o que ele fez podia ser considerado “justo”?! Tudo que eu via, no alto dos meus 8 ou 9 anos, era uma mulher sendo injustiçada enquanto a outra era “protegida” - e isso acabava comigo.
É óbvio que, naquela época, eu me identificava com a Marta - e isso, vez ou outra, ainda acontece.
Hoje, busco celebrar cada passo dado nessa “desidentificação” e observar quando estou na “identificação”. Aos poucos, a possibilidade de escolha fica mais clara na minha consciência e muitas vezes eu já a percebo antes de agir. Porém, é claro que várias vezes eu também ainda me pego optando pelo caminho mais árduo - e não pelo que me fará realmente crescer, florescer e viver - com prazer e alegria, além do trabalho e do estudo.
O ponto é que, mesmo já estando consciente, o apego a essa forma de agir - ao hábito que adquirimos - ainda persiste, deixando claras algumas faces da minha “vítima” interna. Perceber isso me ajuda a dar passos nesse aspecto e a conhecer um pouco mais esse lado que possuo.
Mas e aí? O que faço com isso? Como paro de me escravizar e passo a “me escolher”, a escolher aquilo que alimenta minha alma e traz prazer para a minha vida?
Voltando à história do início, por muito tempo não entendi qual era o propósito da mensagem. Mais tarde chegou um tempo no qual eu comecei a entender racionalmente o que o texto tentava passar. Mas, mesmo assim, ainda não mexia comigo, não chegava.
A revolta havia passado, já havia compreendido e aceitava que ali tinha algo bom. Com isso, parei de questionar e achei que tinha aprendido a lição. Tipo: “Ok, Universo! Manda a próxima da lista porque dessa eu já dei conta, beleza?! Tô cansada desse papo aqui… Já deu.”
Hoje, percebo que a coisa não tinha evoluído tanto assim - no fundo, eu apenas tinha empurrado um pouco mais pra baixo do tapete, espalhando bonitinho para não fazer volume, sabe? Sei e reconheço a mensagem. Vejo o problema que essa identificação causa em mim e como causa, mas permaneço caindo na armadilha. Ok, com menos frequência e saindo com mais facilidade… Mas ainda caio.
É como se houvesse um ímã gigante atraindo todas as demandas e obrigações para minha direção - e aquelas que fossem desviadas da rota, pelo motivo que fosse, eu dava um jeito de ir buscar. Acreditando que aquilo era estritamente necessário para minha vida, que não posso dizer não, que sim, pego mais um pouco - só mais uma vez, se ficar pesado eu abro mão…
Bom, esse padrão descrito aí em cima me rendeu um lindo currículo de desistências, porque é óbvio que não dei conta de tudo sempre.
Ultimamente, minha questão motivadora tem sido observar, sentir a mim mesma, antes de dar qualquer passo em direção a novos projetos, novas obrigações. Busco sentir em mim e me abrir, cada vez mais, para a possibilidade de dizer “não”, simplesmente “não”.
Algumas vezes é difícil separar o “joio” do “trigo”. Esperar e entender o que se passa dentro antes de “agarrar” a oportunidade que parece “gritar” na minha frente. É preciso esforço e honestidade para ver como fujo do prazer e da alegria na vida, de horas livres, de coisas simples como “ficar à toa”. Aceitar que, muitas vezes, não quero e não sustento me ver feliz e plena que existe, sim, uma parte minha que não consegue lidar com isso.
Mas hoje eu também sei que sem essa aceitação a mudança não vem. Que preciso olhar bem de pertinho e de frente todas as minhas partes. Conhecê-las, aceitá-las, abraçá-las.
A partir daí, um novo hábito é possível e pode ser permanente, de forma saudável e equilibrada, sem me violar no processo.
É preciso descobrir cada cantinho desse “EU” que não quer crescer e ser feliz. Que não quer ser pleno.
Pois sei TAMBÉM que possuo uma parte muito forte e importante que quer florescer, construir, amadurecer e dar a cara pra vida. Que quer e já sabe amar. Que quer criar formas construtivas e prazerosas de viver.
E, a partir de hoje, eu escolho dar voz a esta parte.
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Alessandra Girotto — psicanalista, consteladora e helper Pathwork.
Acompanho mulheres que estão aprendendo a escolher a própria vida, sem pressa.
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